Nova forma poética criada na cidade mineira…
Trata-se de um poema sintético,
capaz de inverter ideias correntes
de que a poesia está num beco sem
saída. Essa forma nova demonstra
uma via de saída para a poesia –
aldravia. O Poema é estruturado em
seis versos univocabulares. Ou seja:
somente 6 palavras, uma em cada verso.
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Mais um ano de vida; da Aldravia, forma poética criada na Primaz de Minas, cidade da poesia que reverbera versos desde Frei Santa Rita Durão. A poesia, em todos os tempos, é oração dos que amam a vida, a natureza, as pessoas, os animais… A poesia canta a banalidade, que aos olhos nus são imperceptíveis. O poeta caminha na contramão do automatismo. Revivem nas artes as coisas inúteis e insignificantes, porque o sol ressurge todas as manhãs, sem pedir vênia, na ponta da serra carcomida pela mineração. Que calor! Tempo de luminescer pensamentos mais cinzentos; colocar planos na ponta do lápis; tirar vestidos e camisolas do guarda-roupa mofado; guardar cobertores e agasalhos no fundo do baú.
epifania
do
belo
meu
ipê
amarelo
Sóis plenos e seca! Quentura que se reflete tremulante do asfalto, embaralhando nossas vistas. As flores do ipê amarelo resplandecem a entrada de Passagem; talvez por resistência e resignação. Tenho me resignado com as mazelas curvas da solidão. Pássaros pousam em estado de encantamento e enrubescimento.
Parlamento de aves que se refrescam em ár-vores robustas em entardeceres. Quisera participar do evento-tertúlia, mas a timidez me assombra, o excesso de atividades burocráticas torna meus dias assoberbados e amargos. A linguagem dos pássaros, sobre o ipê amarelo, prenuncia tardes tórridas; fogo
na mata.
de mata
em-mata
mata
minha
ânsia-verde
Meu coração se compraz com o silêncio acordado. Mudez que aperta meu peito hipertenso. Chamo chuva feito índio. Tomara que a mata se proteja do incauto homem. Brisa baila com as cortinas empoeiradas do quarto. Não durmo há tempos. Palavras e nomes de pessoas correm da memória feito rolo compressor. Alzheimer? Envelheço todas as manhãs. Sinto o tempo correr numa velocidade desenfreada. Não quero viver cem, noventa nem oitenta primaveras…
Quero viver feito pássaro em voos intensos. Sinto-me sintonizada com as rugas e celulite e cicatrizes do meu corpo quarenta e oito idos, sem pontos na alma. Não me lembro quem disse que a mágoa pulsa seus sentimentos e lembranças… Mágoas são águas passadas, mortas e purulentas. Não fiz a lição de casa. É o calor, a preguiça (que me imobiliza!); a noite seca, repleta de calores e pernilongos, companhias insones ou de sono profundo. Não exercito minhas investigações; leitura teórica me ‘sofre’, ficam em segundo plano. Espreito a meia-luz da lua; a barata correr de um canto para o outro. O meu cão olha pra mim, petrificado com a liberdade da barata ao percorrer os cômodos feito membro da família. A sisudez marca meu semblante. Forço sorrisos para disfarçar. Quem vê cara, não vê as linhas do coração.
Minhas veias são marcadas por sorrisos e poesias. Flore ali uma flor no meio do nada. Não é nem na trinca do asfalto. Insiste flor em brotar, pulsar, ressurgir, nessa poesia solar, minimamente univocabular, verso brando, livre, amarelo, cor de ouro, luz que se faz e refaz de alma cheia. Setembro é ipê-amarelo, de epifânicas vozes univocabulares:
seis
gotas
nutrem
vozes
versos
poesia!
Vivas ao 17 de setembro, Dia da Aldravia!
Andreia Donadon Leal – Doutoranda em Educação/ Mestre em Literatura


